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Ligações


Animação da Fé


S. Paulo

2008 - Ano Paulino

O Papa Bento XVI proclamou um “Ano Paulino”, para celebrar os 2000 anos do nascimento de São Paulo, com início na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, a 29 de Junho de 2008, e a terminar um ano depois.
Para ajudar a viver este ano a Conferência Episcopal Portuguesa, por intermédio de D. Anacleto, apresenta uma proposta de caminho para este ano. Esta proposta baseia-se numa reflexão para cada semana deste ano Paulino, estrutura em 4 momentos:
• Introdução ao tema
• Texto bíblico (de S. Paulo) que aborda o tema apresentado
• Pequena reflexão que pode ajudar ao debate do tema feito no clã, grupo, patrulha ou bando
• Sugestão de compromisso (geralmente uma oração a partir de um salmo; e uma sugestão).

Tenho noção que face à densidade e profundidade dos temas, este subsídio necessita de ser trabalhado para que possa ser aplicado a cada uma das secções do escutismo. Para tal, está-se a criar uma equipa que colabore neste sentido. Contudo, face à proximidade do início do Ano Paulino, seria interessante começarmos já. Aceitai, por isso, o desafio, na certeza de que aos poucos iremos torná-lo mais aplicável à realidade de cada unidade e por isso mesmo, mais atractivo.

Assim, nesta primeira fase, aos chefes de unidade, sugiro:

* Caminheiros
- Seguirem os subsídios como lhes são apresentados. Será uma bela oportunidade para aprofundarem o conhecimento sobre o seu patrono; será também uma forma de começar a viver o tema da diocese “Tomar conta da Palavra que toma conta de nós”.
- Para tal, seria necessário destinar um “bocadinho de tempo” (15m?) antes ou depois da reunião.
- Depois de reflectir e rezar os textos talvez possa surgir do clã um compromisso concreto (individual ou colectivo) para a semana. A acontecer, seria óptimo.
- Poderá surgir dificuldades ao nível do manuseamento da bíblia. Se acontecer, aí estará uma boa actividade para a equipa: com a ajuda do chefe ou do assistente, fazerem um encontro com o fim de ajudar a “tocar” e manusear a bíblia. Esta actividade poderia ser para todo o agrupamento ou até aberta à comunidade.

* Pioneiros
O mesmo que se disse acima, nomeadamente para estas primeiras semanas. Se não for viável todas as semanas, quiçá escolher um tema por mês ou por trimestre. O que se pede não é que o pioneiro deixe de viver a sua mística e simbologia mas se sinta em comunhão com a Igreja que estará em vivência Paulina. Porque não elaborar um empreendimento baseado em S. Paulo, numa altura que convenha ao grupo de Pioneiro.

* Exploradores
Para os exploradores eu desafiava à leitura do texto tendo como fim o conhecimento da vida e obra de S. Paulo. Situar o apóstolo na linha dos discípulos. O mesmo que disse para os Pioneiros, ou seja, uma aventura com S. Paulo por referência poderia ajudar à vivência deste Ano Paulino. Como sugestão de actividade, sugeria o mapa dos locais que falam de S. Paulo, levando-os semanalmente a preencherem o mesmo com base nas leituras feitas.

* Lobitos
Para os nosso mais pequeninos a tarefa torna-se mais difícil mas deixo um desafio a todas as aquelas: não desperdicem este tempo só porque eles são pequeninos. Sugiro-vos:
- Ler o texto aos lobitos concluindo com um actividade final, um desenho será o ideal.
- Se usardes sempre o desenho, no fim do ano tereis construído com eles uma parte da bíblia (feita por eles) que dará certamente uma bela exposição.
- Como nem todas as semanas o tema poderá ser aliciante ou conforme aos destinatários, podereis ir escolhendo os temas em função da idade, realidade paroquial…

Coloca aqui as tuas dúvidas e sugestões. Eu partilhá-las-ei com o resto dos agrupamentos e, às questões que levantardes procurarei dar sempre resposta.

QUARTA SEMANA



“Pela graça de Deus sou o que sou”



Como terá sido realmente a conversão e vocação de Paulo? É que, comparando os textos já vistos (Act 22, 3-21; Fl 3, 2-11; Gl 1,11-24), depressa notamos diferenças entre eles. Algumas devem-se ao contexto histórico e literário em que foram escritos. Mas outras podem ser indicativas da dimensão sobrenatural do acontecimento. Como manifestação de Deus, é impossível encerrá-lo nos limites da linguagem humana. Esta é, de resto, uma dificuldade sentida até hoje por quem experimenta o sagrado: “Indescritível!” - É a expressão mais usada ... e adequada.
Há, entretanto, um elemento comum a todos esses textos e outros sobre o mesmo tema: a relação desse acontecimento com o Evangelho da morte e ressurreição de Cristo, cujo alcance salvífico se deve, também ele, à intervenção de Deus, a maior na historia da humanidade. Se nalguns textos a ligação é indirecta ou pressuposta, noutros é explicita e até acentuada.
É o caso de 1 Cor 15, 1-11, que Paulo escreveu, para desfazer dúvidas entre os cristãos de Corinto sobre a ressurreição dos mortos. Negá-la - argumenta ele - é negar que Cristo tenha ressuscitado e, consequentemente, tirar à comunidade cristã o fundamento da sua existência. E se esta depende do Evangelho, a do Apóstolo muito mais. Vejamos em que sentido, fixando-nos particularmente nos vv. 3-5, para os quais converge todo o texto.

1 Cor 15,1-11


1Lembro-vos, irmãos, o evangelho que vos anunciei, que vós recebestes, no qual permaneceis firmes 2e pelo qual sereis salvos, se o guardardes tal como eu vo-lo anunciei; de outro modo, teríeis acreditado em vão.
3Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; 4foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; 5apareceu a Cefas e depois aos Doze. 6Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. 7Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos. 8Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto.
9É que eu sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. 10Mas, pela graça de Deus, sou o que sou e a graça que me foi concedida, não foi estéril. Pelo contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles: não eu, mas a graça de Deus que está comigo. 11Portanto, tanto eu como eles, assim é que pregamos e assim também acreditastes.


É impressionante o modo como Paulo, no v. 10, insiste na graça de Deus. Porquê e de que graça se trata?
Em grego, graça diz-se kharis, uma palavra que é da mesma raíz verbal de kháirein (alegrar-se). Na origem, aplicava-se à atitude ou gesto em que um superior se volta e inclina para um inferior, não porque este o mereça, mas unicamente pelo bem que lhe quer e a alegria que lhe dá. Tanta, que pode fazer dele uma nova criatura. Sobretudo se o gesto é expressão de amor, um amor até a exaustão.
Haverá, nesse sentido, maior graça do que a do Deus Altíssimo, Senhor do Céu e da terra? E mais ainda, se aqueles para os quais se inclina, estão em ruptura com Ele, uma ruptura mortal? E se Ele tudo faz, para os salvar dessa situação de pecado e de morte?
Pois bem, foi exactamente isso que Deus, o Deus das Escrituras, fez num grau de todo inesperado, por meio de seu Filho (Rm 5,6-8; 8,32). Vejamos o que é dito nos vv. 3-4. Que Cristo morreu pelos nossos pecados, significa não apenas que foi vítima do pecado dos homens, a começar pelos que o mataram, mas sobretudo que Ele, em total comunhão com Deus, fez dessa morte a entrega da vida por nós, que pelo pecado estávamos condenados à morte, abrindo-nos assim o caminho para Deus e para a vida que só Ele pode dar (Rm 3, 24s). Por isso Deus o superexaltou e lhe deu um nome que está acima de todo o nome - proclamamos ainda hoje (Fl 2,9). Isto é, se Cristo foi ressuscitado ao terceiro dia, deveu-se ao amor sobre-humano com que transformou a morte em doação da vida. E, ao ressuscitá-lo para a glória, Deus perpetua esse amor para além de todo o tempo e espaço. De tal modo que a própria manifestação do Ressuscitado, em que Deus oferece esse amor gratuito, é, também ela, uma graça, que transforma radicalmente quem a recebe. Cristo que, pela sua morte e ressurreição, atingiu o acto e o estado de um amor à escala infinita de Deus, é nessas condições que se revela. E quem consegue resistir a um amor assim?
Foi nessa graça (vv. 3-5) que Paulo, depois de muitos outros (vv. 6s), teve a graça de participar (vv. 8-10). No seu caso, a graça foi tanto maior, quanto a recebeu em plena perseguição da Igreja de Deus, que o mesmo é dizer, do Deus que está na origem da Igreja e nela actua. Razão tem o Ressuscitado para lhe dizer: Eu sou Jesus, a quem tu persegues (Act 9, 5). Daí que Paulo se chame a si mesmo (ou outros, desdenhosamente, lhe chamassem) o aborto. É que, se Deus, como havia feito com antigos profetas (Is 49,1; Jr 1,5), o tinha segregado desde o seio materno para o constituir mensageiro do Seu Filho (Gl 1, 15), então Paulo, desde o nascimento até encontrar Cristo, não passou realmente de um nato morto.
Foi tal a transformação que Deus nele operou, que ele próprio, em 2 Cor 4,6 e com base em Gn 1,3 e Is 49, 6, a interpreta como uma verdadeira criação: o Deus que disse: «das trevas brilhe a luz»,foi Ele que brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus no rosto de Cristo. Paulo passa a irradiar o que conhece. Ou melhor: Aquele por quem foi conhecido, uma vez que, na concepção bíblica,o0 conhecimento é, acima de tudo, um processo afectivo que decorre no coração, o centro vital do homem. E aqui a iniciativa é de Deus. É Ele quem se dá a conhecer no seu Filho em cujo rosto de Morto Ressuscitado brilha a expressão mais gloriosa do amor divino.
É deste modo que o Evangelho passa a fazer parte integrante da vida de Paulo: Ai de mim, se não evangelizar! - confessa ele em 1 Cor 9, 16. Não o fazer, é perder o sentido e a razão de viver. E vice-versa: sem Apóstolos como ele, não há Evangelho, isto é, não há quem comunique a graça de Cristo, como seu enviado e testemunha (Rm 10, 14s): como alguém cuja vida seja uma expressão do conteúdo anunciado; alguém em quem o Crucificado Ressuscitado se manifesta ao vivo, com a força vivificante da sua graça.
Foi o que Paulo fez na sua actividade apostólica, nomeadamente na que deu origem à comunidade cristã de Corinto, uma das inúmeras provas de que a graça de Deus que nele actua não foi estéril ... nem em Corinto, nem entre nós (v. 10).
Só precisamos de nos deixar conquistar e alimentar pela graça que o Apóstolo nos oferece no Evangelho que acaba de transmitir-nos. Porque não voltar a lê-lo?

SUGESTÕES:

- Para rezar: Sl 138, ou a confiança em Deus que desde sempre nos conhece

- Para ler: Act 26,2-23, sobre a vocação de Paulo, e ainda Is 6; 42, 1-9; 49,1­6; Jr 1, 4-19; Ez 1,1-3,15; Mt 9,9-13; Mc 1,16-20; Lc 5,1-11; Jo 2, 25-31; 21, 1-18, sobre a vocação de outras figuras proféticas e apostólicas.



TERCEIRA SEMANA



“Com que excesso perseguia a Igreja de Deus”



Por que razões perseguiu Paulo os cristãos? Simplesmente por proclamarem que Jesus era o Messias? Eram tão frequentes os pretendentes messiânicos, que as autoridades judaicas já raramente lhes davam importância. Também não seria por se tratar de um Messias crucificado: embora sendo um escândalo para os judeus (l Cor 1,23), não o levaria certamente a uma perseguição tão cruel.
De qualquer modo, não é isso o que o próprio Paulo nos diz, designadamente em Gl 1, 11-24, onde defende a origem divina do Evangelho por ele anunciado. As dúvidas provinham novamente de cristãos judaizantes. Porque Paulo não exigia a circuncisão para os cristãos de origem pagã, acusavam-no de se ter tornado infiel a pretensas orientações recebidas dos restantes Apóstolos, sobretudo Pedro. Contra isso, Paulo expõe as principais e sucessivas etapas da sua vida, antes e depois de ser Apóstolo. Entre elas, está a perseguição movida aos cristãos e a razão por que o fazia.


Gl 1, 11-24



11Com efeito, faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana; 12pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo.
13Ouvistes falar do meu procedimento outrora no judaísmo: com que excesso perseguia a Igreja de Deus e procurava devastá-la; 14e no judaísmo ultrapassava a muitos dos compatriotas da minha idade, tão zeloso eu era das tradições dos meus pais.
15Mas, quando aprouve a Deus - que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça - 16revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios, não fui logo consultar criatura humana alguma, 17nem subi a Jerusalém para ir ter com os que se tornaram Apóstolos antes de mim. Parti, sim, para a Arábia e voltei outra vez a Damasco.
18A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias. 19Mas não vi nenhum outro Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. 20O que vos escrevo, digo-o diante de Deus: não estou a mentir.
21Seguidamente, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. 22Mas não era pessoalmente conhecido das igrejas de Cristo que estão na Judeia. 23Apenas tinham ouvido dizer: «Aquele que nos perseguia outrora, anuncia agora, como Evangelho, a fé que então devastava.» 24E, por causa de mim, glorificavam a Deus.

O que, portanto, levava Paulo a perseguir a Igreja de Deus era o zelo pelas tradições dos antepassados (vv. 13s). Trata-se de tradições formadas sobretudo a partir da Lei, a primeira parte das Escrituras, mais conhecida entre nós por Pentateuco. Nela se fundava a existência de Israel. Para facilitar a sua aplicação à vida dos crentes, era continuamente interpretada e actualizada, dando assim origem à formação de sucessivas tradições orais e escritas, que, principalmente para os fariseus, eram tão importantes como a Lei em que se inspiravam. Por isso, em Fl 3,6, em vez delas, Paulo fala simplesmente do seu zelo pela Lei. Por ela, como fariseu, estava disposto a tudo, em defesa da fidelidade a Deus, tão fundamental para a vida do seu Povo.
Resta saber como é que os cristãos estavam a desprezar a Lei e as respectivas tradições. Vejamos, para isso, o que dizem os Actos dos Apóstolos, sobretudo no cap. 6. Aí se fala da existência de dois grupos de cristãos em Jerusalém: os Helenistas e os Hebreus. Eram ambos constituídos por judeus convertidos a Cristo, mas oriundos de lugares diferentes. Enquanto os Helenistas, por terem vindo da diáspora, só falavam grego, os Hebreus, sendo da Palestina, entendiam-se apenas em aramaico. Daí os Helenistas se terem organizado em sinagogas próprias, com actividades autónomas, nomeadamente nos campos sócio-caritativo e litúrgico (Act 6, 8s). Os Helenistas eram dirigidos por sete homens, à frente dos quais estava Estêvão, por ser esse o número de membros da direcção de cada sinagoga. Mas, mesmo depois de se tornarem cristãos, o que terá acontecido pouco tempo depois da morte e ressurreição de Cristo, Estêvão e os restantes continuavam a frequentar as sinagogas a que antes estavam ligados.
E foi aí que se começaram a manifestar diferenças também a nível doutrinal. Os Helenistas cristãos defendiam que o culto, praticado no templo e regulamentado pela Lei, já não fazia sentido depois da morte redentora de Cristo. Para eles, o perdão dos pecados, que se procurava obter pelos sacrifícios oferecidos no templo, tinha sido alcançado, definitivamente e para toda a humanidade, por Jesus Cristo, na sua morte e ressurreição. Para a salvação, bastava a fé em Jesus Messias.
Baseavam-se, para isso, em acções e palavras do próprio Jesus, sobretudo na afirmação ligada à sua morte: Demolirei este templo construído pela mão dos homens e, em três dias, edificarei outro que não será feito pela mão dos homens (Mc 14,58). Segundo Jo 2, 21s, Jesus falava do templo que é o seu próprio corpo. Por isso, quando Jesus ressuscitou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se do que Ele tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido. Entre esses discípulos estavam Estêvão e os restantes Helenistas cristãos. A acusação que lhe é feita de falar contra este Lugar Santo e contra a Lei, baseava-se nessas palavras de Jesus (Act 6, 13s). E por isso o mataram (Act 7).
Os restantes Helenistas cristãos, agora chefiados por Filipe, tiveram de fugir de Jerusalém (Act 8,1). Mas não abandonaram as suas convicções. Pelo contrário: a morte de Estêvão, por razões semelhantes às da morte de Jesus, provocou neles um redobrado entusiasmo missionário que, depois de deixarem Jerusalém, os levou a fundar comunidades cristãs, primeiro entre os samaritanos, também eles tradicionalmente adversos ao Judaísmo de Jerusalém (Act 8, 4ss). Seguiram-se outros centros populacionais, entre os quais Antioquia da Síria, onde anunciavam o Evangelho também aos pagãos, provavelmente sem lhes exigirem a circuncisão (Act 11, 18ss), o que constituía mais um motivo para a perseguição movida a partir de Jerusalém.
Terá sido neste contexto que nasceu a comunidade cristã de Damasco. Por isso Paulo partiu para lá, apoiado pelo Sinédrio de Jerusalém (Act 9, 1s) e em fanática defesa do cumprimento da Lei... mas onde acabou por chegar como cristão, depois de Deus ter revelado nele o seu Filho, para fazer exactamente o mesmo que faziam aqueles que antes perseguia: evangelizar os pagãos.
Razão tinham os cristãos da Judeia para glorificar a Deus: não só pela vitória sobre o fanatismo de Paulo (v. 24) mas por tantas outras maravilhas, entretanto operadas por meio dele no anúncio da fé... até hoje...

SUGESTÕES:


- Para rezar: Sl 30, de confiança em Deus, no meio das provações, como aquelas por que passaram Jesus e Estêvão.

- Para ler: Act 6,1-9,30; 11, 19-25, sobre os Helenistas e a perseguição movida por Paulo, e, se possível, Lc 22-23, sobre a morte de Jesus, à qual a de Estêvão foi semelhante.



SEGUNDA SEMANA


“Fui circuncidado ao oitavo dia”


Paulo, nas cartas directamente provenientes dele (chamadas protopaulinas), raramente expõe a sua conversão. De um modo explícito, só fala dela em 1 Cor 9, 1; 15,8-10; 2 Cor 4,6; Gl l, 15-16 e Fl 3, 4-11. São referências demasiado parcas e breves para um acontecimento tão determinante. Será que ele não tinha consciência disso? Ou, talvez por modéstia, evitasse falar dele?
Pelo contrário: o facto de não escrever mais vezes e mais pormenorizadamente sobre a sua conversão e vocação, é sinal de que era sobejamente conhecida. É mesmo provável que fosse parte integrante do seu anúncio de Cristo. Pelo menos em Act 22,15, é isso que lhe é transmitido através de Ananias: serás testemunha diante de todos as homens acerca do que viste e ouviste. De resto, são quase incontáveis as referências indirectas. Quando o faz de um modo explícito, é praticamente sempre em situações em que se vê recusado, na sua condição de Apóstolo ou no Evangelho que anuncia.
É o caso de F13, 2-11. Terão aparecido na comunidade de Filipos missionários cristãos que, ao contrário de Paulo, defendiam ser pelo menos conveniente para os cristãos vindos do paganismo receber a circuncisão, o sinal externo da adesão de fé à aliança de Deus com o seu Povo, desde o início da sua historia em Abraão. Paulo reage, logo no princípio da passagem, de um modo muito duro e quase ofensivo. Sinal de que estava em causa algo de intocável para os cristãos ... e para ele. É por isso que ele fala da sua própria conversão: para mostrar, com o seu próprio exemplo, o que realmente é necessário e suficiente para nos tornarmos cristãos.
A esse propósito fornece também informações sobre a sua condição de judeu, que muito nos ajudam a compreender a sua pessoa, mensagem e actividade, mesmo depois de se ter convertido a Cristo.


Fl 3,2-11



2Cuidado com esses cães, cuidado com esses maus trabalhadores, cuidado com os falsos circuncisos! 3Porque nós é que somos pela circuncisão: nós, os que prestamos culto pelo Espírito de Deus, nos gloriamos em Cristo Jesus e não confiamos na carne - 4ainda que eu tenha razões para, também eu, pôr a confiança precisamente nos méritos humanos. Se qualquer outro julga poder confiar nesses méritos, eu posso muito mais: 5circuncidado ao oitavo dia, sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, um hebreu descendente de hebreus; no que toca à Lei, fui fariseu; 6no que toca ao zelo, perseguidor da Igreja; no que toca à justiça - a que se procura na lei - irrepreensível. 7Mas, tudo quanto para mim era ganho, isso mesmo considerei perda por causa de Cristo.
8Sim, considero que tudo isso foi mesmo uma perda, por causa da maravilha que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por causa dele, tudo perdi e considero esterco, a fim de ganhar a Cristo 9e nele ser achado, não com a minha própria justiça, a que vem da Lei, mas com a que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e que se apoia na fé. 10Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, 11para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos.

Tem havido quem veja nestas palavras de Paulo um corte radical com o Judaísmo em que nasceu e cresceu. Uma interpretação que terá mesmo alimentado o anti-semitismo que tanto mal tem causado ao longo da história. Para nos apercebermos de que a interpretação é errada, bastaria ler os elogios que Paulo, não muito longe do fim da sua vida, tece ao seu povo em Rm 9, 1-5.
Mas mantenhamo-nos em F1 3, 2-11 e vejamos, para já, o que ele nos diz sobre a sua vida como judeu (vv. 4-6). Uma vida religiosamente exemplar, a todos os títulos. E são sete, ao todo.
Os primeiros quatro, deve-os à família (v. 5). Assim, teve pais que o mandaram circuncidar ao oitavo dia, a data exacta estabelecida em Lv 13, 12. Sendo da raça de Israel, tem a honra de ser membro do povo ancestralmente constituído pela eleição divina, que o nome Israel evoca. Pertence à tribo de Benjamim, que se manteve unida à de Judá, depois da separação das doze tribos no sec. X a.C., e em cujo território estava situado o templo de Jerusalém. A ela, além disso, pertencera também o primeiro rei, que até tinha o mesmo nome, Saul. Ser hebreu descendente de hebreus, significava não ter na sua genealogia qualquer antepassado não judeu, o que só aos sacerdotes era exigido.
A estes títulos Paulo junta mais três, obtidos por opção própria (v. 6). Tornou-se fariseu, a associação de leigos, com raízes no séc. II a.C., que velava pelo cumprimento da Lei, adaptando-a, para isso, às diversas e sucessivas circunstâncias da vida. A imagem negativa que os Evangelhos dão dos fariseus deve-se muito às circunstâncias históricas em que foram escritos: depois do ano 70, agravou-se o conflito entre eles e os cristãos. Na realidade, porém, havia fariseus de uma piedade profunda e que, por isso, eram muito respeitados. Paulo era um deles: no que toca à justiça - a que vem da Lei - irrepreensível. E foi essa inquebrantável fidelidade à Lei que o levou a perseguidor da Igreja ... e que acabou por conduzi-lo a Cristo, que, por sua vez, o levou a considerar como esterco tudo o que antes era título de glória. Em que sentido?
Não que ele, como cristão, tenha enterrado todo o passado judaico. Pelo contrário: foi como judeu que despertou para a fé no Deus único, o Deus de Jesus Cristo, e aprendeu a conhecer as Escrituras em que Ele se revela, imprescindíveis na sua futura tarefa apostólica. Nas suas cartas cita-as habitualmente na versão grega dos LXX, usada nas sinagogas da diáspora, um sinal de que as começou a conhecer já em Tarso. Em Jerusalém, na escola de Gamaliel I (Act 22, 3), ter-se-á familiarizado com os vários métodos rabínicos de interpretação bíblica que irá usar, designadamente em várias passagens das suas cartas. Como fariseu, e ao contrário dos saduceus, já acreditava na ressurreição dos mortos (Act 23, 6-8), o que iria ser plenamente confirmado pela aparição de Cristo ressuscitado.
E foi exactamente este (re)conhecimento de Cristo que se tornou tão determinante na sua vida, que passou a rejeitar radicalmente tudo o que o ofuscasse. Era o caso dos missionários judaizantes que apelavam para a circuncisão para se ser cristão. Na prática, significava que a fé em Cristo era insuficiente para a salvação (GI 2, 21). E foi o seu próprio caso: o zelo de fariseu levava-o à rejeição de Cristo, manifestada na perseguição da Igreja. Como, sem o Deus de Jesus Cristo, se fica reduzido à debilidade e caducidade da própria carne, por isso e só nesse sentido, é que Paulo considera o seu passado como esterco. Tão importante para ele era Cristo ... que também era judeu ...

SUGESTÕES:
- Para rezar: Sl 106, de acção de graças pela misericórdia de Deus para com o seu Povo, em várias fases da sua história.
-Para Ler: Rm 4, 1-25, sobre Abraão como modelo da fé, e, se possível, Gn 12-23, sobre o lugar de Abraão na história do Povo de Deus.


PRIMEIRA SEMANA



“Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia”


Depois das cartas de Paulo, o livro do NT que mais nos fala dele são os Actos dos Apóstolos. E de que maneira. É introduzido em 7,49 e 8,3, por ocasião da morte de Estêvão; reaparece em 9, 1-31, a propósito da sua conversão; vai-se tornando figura dominante a partir de 13, 1ss, com a primeira viagem missionária e a reunião apostólica em Jerusalém; e desde 15,36 até ao fim, em 28, 31, não há acontecimento, tanto das suas segunda e terceira viagens missionárias como da prisão que o leva de Jerusalém a Roma, no qual ele não assuma um papel determinante.
Paulo foi assim um dos que mais contribuiu para a realização do programa missionário que, conforme descrição dos Actos, Jesus Ressuscitado deixou aos Apóstolos, antes da sua ascensão: Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sabre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra (1,8). Se nos lembrarmos de que hoje vivemos nesses confins da terra, então é sobretudo a ele que temos de agradecer a vida que temos em Cristo. Ou melhor: é ao próprio Cristo. Foi Ele quem fez de Paulo testemunha do seu Evangelho, aliás numa intervenção decisiva para a expansão da fé cristã.
Por ser tão importante a sua conversão e vocação é que os Actos a descrevem por três vezes: em 9, 1-22 é narrada pelo autor, e em 22,3-21 e 26, 2-23 pelo próprio Paulo, em dois discursos de defesa proferidos, respectivamente, por altura e depois de ter sido preso. Escolhemos o de 22,3-21, dirigido aos judeus de Jerusalém, por conter informações únicas sobre a fase pré-cristã da sua vida.


3«Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas fui educado nesta cidade, instruído aos pés de Gamaliel, em todo o rigor da Lei dos nossos pais e cheio de zelo pelas coisas de Deus, como todos vós sois agora. 4Persegui de morte esta «Via», algemando e entregando à prisão homens e mulheres, 5como o podem testemunhar o Sumo Sacerdote e todos os anciãos. Recebi até, da parte deles, cartas para os irmãos de Damasco, onde ia para prender os que lá se encontrassem e trazê-los agrilhoados a Jerusalém, a fim de serem castigados.
6Ia a caminho, e já próximo de Damasco, quando, por volta do meio dia, uma intensa luz, vinda do Céu, me rodeou com a sua claridade. 7Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ 8Respondi: ‘Quem és Tu, Senhor?’ Ele disse-me, então: ‘Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues.’ 9Os meus companheiros viram a luz, mas não ouviram a voz de quem me falava. 10E prossegui: ‘Que hei-de fazer, Senhor?’ O Senhor respondeu-me: ‘Ergue-te, vai a Damasco, e lá te dirão o que se determinou que fizesses.’ 11Mas, como eu não via, devido ao brilho daquela luz, fui levado pela mão dos meus companheiros e cheguei a Damasco.
12Ora um certo Ananias, homem piedoso e cumpridor da Lei, muito respeitado por todos os judeus da cidade, 13foi procurar-me e disse: ‘Saulo, meu irmão, recupera a vista.’ E, no mesmo instante, comecei a vê-lo. 14Ele prosseguiu: ‘O Deus dos nossos pais predestinou-te para conheceres a sua vontade, para veres o Justo e para ouvires as palavras da sua boca, 15porque serás testemunha diante de todos os homens, acerca do que viste e ouviste. 16*E agora, porque esperas? Levanta-te, recebe o baptismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o seu nome.’
17De regresso a Jerusalém, enquanto orava no templo, caí em êxtase. 18Vi o Senhor e Ele disse-me: ‘Apressa-te e sai rapidamente de Jerusalém, porque não receberão o teu testemunho a meu respeito.’ 19Eu respondi: ‘Senhor, eles bem sabem que eu andava pelas sinagogas a meter na prisão e a açoitar os que acreditavam em ti. 20E, quando foi derramado o sangue de Estêvão, tua testemunha, também eu estava presente, de acordo com eles, e tinha à minha guarda as capas dos que lhe davam a morte.’ 21Ele, então, disse-me: ‘Vai, que te vou enviar lá ao longe, aos pagãos.»


Sem perder de vista o conjunto do texto, fixemo-nos, por enquanto, nas palavras iniciais e finais. Nas primeiras porque nos dizem onde Paulo nasceu e cresceu, nas últimas por nos indicarem a quem, como Apóstolo, foi enviado. Num caso e no outro, somos levados para além das fronteiras da Palestina, o centro geográfico e religioso do Judaísmo, a caminho dos confins da terra. Ou seja, não foi por acaso que Deus, para testemunha de Cristo diante de todos os homens (v. 15), enviado lá ao longe, aos pagãos (v. 21), tenha eleito este Judeu oriundo de Tarso (v. 3).
Tarso era a capital da província romana da Cilícia, a sudeste da actual Turquia.
Além de ficar perto do Mediterrâneo, era servida por vias que uniam varias partes do Império. Daí o seu intenso comércio e o fácil escoamento para os seus principais produtos: tecidos de linho e de crinas de cabra (o cilício) e curtumes. À riqueza material juntava-se a cultural, alimentada sobretudo por escolas de filosofia e de retórica.
Foi aí que Paulo nasceu de pais judeus, possivelmente entre os anos 5 e 10 da era cristã, e adquiriu os conhecimentos da língua grega e da arte e normas da retórica antiga que irá manifestar, nomeadamente, nas suas cartas. Foi aí que, com cilício, aprendeu a fazer tendas, uma profissão que lhe irá permitir dedicar-se ao serviço do Evangelho, renunciando a qualquer remuneração material por isso (Act 18,3). Foi certamente aí também que, como homem citadino, se começou a aperceber das potencialidades das metrópoles, para, mais tarde, fazer delas centros que facilitaram uma rápida e larga irradiação do Cristianismo. Foi ainda aí que se tornou cidadão romano, um direito adquirido provavelmente dos pais e a que irá apelar para, depois de preso na última visita a Jerusalém, ser levado para Roma, onde será martirizado (Act 22, 22-30).
Talvez tenha sido ainda par ter nascido na diáspora que os pais lhe deram dois nomes: o grego Paulo e o hebraico Saúl (ou Saulo, na sua forma grega). Nas suas cartas, escritas em grego e para comunidades fora da Palestina, apresenta-se sempre com o primeiro. Mas nos Actos dos Apóstolos só começa a ser chamado assim, não a partir da sua conversão, como erroneamente muitos pensam, mas em 13,9, isto é, desde que, na sua primeira viagem missionária (13,1-14, 28), começa a pisar solo pagão ... a caminho dos confins da terra.
Não será que, até neste duplo nome, em que se unem o mundo judaico e o pagão, esteve já o dedo de Deus, aquele Deus que, conforme o próprio Paulo confessa, me elegeu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça, para anunciar o Seu Filho entre os gentios (GI 1, 15-16)? Uma coisa é certa: com Deus nada acontece por acaso ... ainda hoje, na vida de cada um de nós ...

Sugestões:
• para rezar: Sl 66, de louvor a Deus pelas susa bênçãos, muito para além dos confins da terra
• Para ler: Actos dos apóstolos, se não na sua totalidade, ao menos a partir do cap. 9, ou relatos da conversão de Paulo: 9,1-22;22,3-21;26,2-23.


Coloca aqui as tuas dúvidas e sugestões. Eu partilhá-las-ei com o resto dos agrupamentos e, às questões que levantardes procurarei dar sempre resposta.

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Última actualização 26/02/2009 09:26 PM